Mulheres de todas as etnias podem ser vítimas de exclusão social, levando-se em consideração que a condição econômica possa ser anterior à questão racial. Não quero aqui dizer que mulheres de outras etnias não sofrem discriminação, pelo contrário, todas são discriminadas, configurando a mulher, como um todo, um grupo excluído de nossa sociedade ainda patriarcal, ainda machista e, por isso mesmo, excludente. Exemplo disso, as pesquisa recentes acerca das oportunidades de trabalho oferecidas às mulheres negras, em comparação com o grupo dos brancos, essa realidade será facilmente comprovada. Entretanto, a mulher negra receberá aqui o enfoque principal, porque sua situação além de ser o reflexo do que acontece com todas as mulheres, acrescente aqui o preconceito de cor, uma situação a que estas brasileiras têm de suportar.
Sabemos que os escravos trazidos da África eram aproveitados nas mais diversas atividades econômicas. Negros e negras desempenhavam todas as funções nos engenhos, cuidavam da agricultura, da pecuária, trabalhavam em minas de ouro e pedras preciosas, além de participar ativamente nas tarefas relacionadas à rotina das casas de seus senhores.
Neste sentido, a negra escrava sempre foi vista como um bem econômico superior ao negro, por gerarem filhos que mais tarde seriam negociados como escravos. Sabe-se que a importação de negros da África era um mercado relativamente caro. Por isso, desde o princípio da colonização do Brasil, a negra foi vista como um objeto de serventia para os negócios. Entretanto, apesar do interesse no novo “escravo” prestes a nascer, os senhores proprietários de escravas não permitiam qualquer descanso ou folga em seus afazeres durante o período de gravidez.
Além disso, havia a relação senhor e escrava. Muitos senhores ignoravam o abismo social que os separava de suas escravas e mantinham relações sexuais com elas, gerando filhos nunca reconhecidos. Muitas destas escravas praticavam o aborto, por vergonha do filho que estavam gerando e com medo de represálias por parte de suas patroas. Sua dignidade seja como mulher, seja como mãe, nunca foi reconhecida.
A situação das mulheres negras, hoje não é muito diferente se falarmos em termos de dignidade. Findo o período escravocrata, permaneceu o preconceito. Sabe-se que mulheres brancas possuem melhores oportunidades do que mulheres negras, seja no trabalho,seja no acesso à escola ou ainda na vida social como um todo.
Um relatório da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), divulgou que a taxa de analfabetismo entre as mulheres negras, naquele período, chegava ao dobro da taxa verificada para as mulheres brancas. Do total de mulheres negras maiores de cinco anos, 33,1% estavam na condição de analfabetas. No caso das mulheres brancas esse percentual era de 18,5%. A mesma pesquisa informou que as mulheres negras ocupadas em atividades manuais perfaziam um total de 79,4%, sendo 51% envolvidas com trabalho doméstico em geral,. e 28,4% como cozinheiras, serventes e lavadeiras. Em atividades como secretariado, recepção e vendas, encontravam-se 7,4% das mulheres negras. Já em funções técnicas, administrativas, científicas, artísticas entre 5,3 e 10%.
Uma realidade triste se nos lembrarmos que a população negra corresponde a boa parte de toda a população brasileira. As mulheres negras são visivelmente excluídas de melhores oportunidades de trabalhos e estão fora da relação de equidade social do país .