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07/12/2009 - 19:30
CONSCIÊNCIA NEGRA, MODO DE USAR - (Fechando a tampa das discussões do mês)


por Nei Lopes 

Quando te disserem que você quer dividir o Brasil em pretos e

brancos, mostre que essa divisão sempre existiu. Se insistirem na

acusação, mostre que, neste país, 121 anos após a Abolição, em todas

as instâncias, o Poder é sempre branco. E que até mesmo como técnicos

de futebol ou carnavalescos de escolas de samba, os negros só aparecem

como exceção.



Quando, ainda batendo nessa tecla, te disserem que o Brasil é um país

mestiço, concorde. Mas ressalve que essa mestiçagem só ocorre, com

naturalidade, na base da pirâmide social, e nunca nas altas esferas do

Poder. E que o argumento da mestiçagem brasileira tem legitimado a

expropriação de muitas das criações do povo negro, do samba ao candomblé.



Quando te jogarem na cara a afirmação de que a África também teve

escravidão, ensine a eles a diferença entre servidão e cativeiro.

Mostre que a escravidão tradicional africana tinha as mesmas

características da instituição em outras partes do mundo,

principalmente numa época em que essa era a forma usual de exploração

da força de trabalho. Lembre que, no escravismo tradicional africano,

que separava os mais poderosos dos que nasciam sem poder, o bom

escravo podia casar na família do seu senhor, e até tornar-se

herdeiro. E assim, se, por exemplo, no século XVII, Zumbi dos Palmares

teve escravos, como parece certo, foi exatamente dentro desse contexto

histórico e social.



Diga, mais, a eles que, na África, foram primeiro levantinos e,

depois, europeus que transformaram a escravidão em um negócio de altas

proporções. Chegando, os europeus, ao ponto de fomentarem guerras

para, com isso, fazerem mais cativos e lucrarem com a venda de armas e

seres humanos.



Diga, ainda, na cara deles que, embora africanos também tenham vendido

africanos como escravos, a África não ganhou nada com o escravismo,

muito pelo contrário. Mas a Europa, esta sim, deu o seu grande salto,

assumindo o protagonismo mundial, graças ao capital que acumulou coma

escravidão africana. Da mesma que forma que a Ásia Menor, com o

tráfico pelo Oceano Índico, desde tempos remotos.



Quando te enervarem dizendo que movimento negro é imitação de

americano, esclareça que já em 1833, no Rio, o negro Francisco de

Paula Brito (cujo bicentenário estamos comemorando) liderava a

publicação de um jornal chamado O Homem de Cor, veiculando, mesmo com

as limitações de sua época, reivindicações do povo negro. Que daí, em

diante, a mobilização dos negros em busca de seus direitos, nunca

deixou de existir. E isto, na publicação de jornais e revistas, na

criação de clubes e associações, nas irmandades católicas, nas casas

de candomblé... Etc.etc.etc.



Aí, pergunte a eles se já ouviram falar no clube Floresta Aurora,

fundado em 1872 em Porto Alegre e ativo até hoje; se têm idéia do que

foi a Frente Negra Brasileira, a partir de 1931, e o Teatro

Experimental do Negro, de 1944. Mostre a eles que movimento negro não

é um modismo brasileiro. Que a insatisfação contra a exclusão é geral.

Desde a fundação do Partido Independiente de Color, em Cuba, 1908,

passando pelo movimento Nuestra Tercera Raíz dos afro-mexicanos, em

1991; pela eleição do afro-venezuelano Aristúbolo Isturiz como

prefeito de Caracas, em 1993; pelo esforço de se incluírem conteúdos

afro-originados no currículo escolar oficial colombiano no final dos

1990; e chegando à atual mobilização dos afrodescendentes nas

províncias argentinas de Corrientes, Entre Rios e Missiones, para só

ficar nesses exemplos.



Quando, de dedo em riste, te jogarem na cara que os negros do Brasil

não são africanos e, sim, brasileiros; e que muitos brasileiros pretos

(como a atleta Fulana de Tal, a atriz Beltrana, e o sambista

Sicraninho da Escola Tal) têm em seu DNA mais genes europeus do que

africanos, concorde. Mas diga a eles que a Biologia não é uma ciência

humana; e, assim, ela não explica o porquê de os afrobrasileiros

notórios serem quase que invariavelmente, e apenas, profissionais da

área esportiva e do entretenimento.

E depois lembre que a Constituição

Brasileira protege os bens imateriais portadores de referência à

identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da

sociedade brasileira e suas respectivas formas de expressão. E que a

Consciência Negra é um desses bens intangíveis.



Consciência Negra repita bem alto pra eles, parafraseando Leopold

Senghor não é racismo ou complexo de inferioridade e, sim, um anseio

legitimo de expansão e crescimento. Não é separatismo,

segregacionismo, ressentimento, ódio ou desprezo pelos outros grupos

que constituem a Nação brasileira.



Consciência Negra somos nós, em nossa real dimensão de seres humanos,

sabendo claramente o que somos, de onde viemos e para onde vamos,

interagindo, de igual pra igual, com todos os outros seres humanos, em

busca de um futuro de força, paz, estabilidade e desenvolvimento.

Por Jorge L.R.Santos-Kedere Consultoria Educacional
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