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10/08/2009 - 18:15
O Apartheid na escola pública - Longo Caminho para a Liberdade


Maria da Glória Costa Reis*

"Primeiro como escravos, depois como párias." (Gilberto Freyre (Casa-grande & Senzala, Círculo do livro, p. 377)

A estudante de Direito Raquel Padilha, da Faculdades Doctum de Leopoldina-MG, escolheu como trabalho de conclusão de curso uma pesquisa sobre a efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente na escola pública. O tema chamou-lhe a atenção devido a sua participação como voluntária no projeto CENACAF (Centro de atendimento a criança, adolescente e família, Leopoldina-MG), no qual se depara com a realidade de centenas de crianças carentes da periferia. Ela passou a observar que grande parte daquelas crianças e dos adolescentes estava fora da escola. No início do ano letivo, todos se matriculavam, mas não permaneciam nem até ao meio do ano. Ao mesmo tempo, Raquel constatava que, ali no projeto, onde os alunos participam das atividades, eles permanecem há anos sem que haja evasão como na escola. Por quê?

Algumas "pistas" foram surgindo. Uma delas era referente às exigências da escola que demandam custos para aquelas famílias que não podiam arcar com, por exemplo, material escolar e uniforme. Algumas escolas chegavam ao absurdo de exigir tamanho de caderno e plástico para encapar. A estudante deparou com vários relatos de alunos impedidos de entrar na escola por estarem sem material, sem documento, sem uniforme, sem sapatos e por incidentes, como chegar depois do horário estabelecido. Além de tudo isso vieram relatos de agressões físicas e verbais por parte dos professores, diretores e até mesmo serventes. Diante desse quadro de descumprimento da lei, a estudante de Direito decidiu-se, no fim de 2005, pelo título da sua monografia: "A não-efetividade do Estatuto da Criança e do Adolescente na escola pública".

Em 2006, iniciou o trabalho através de um questionário aplicado a uma amostra com 40 crianças e adolescentes pobres da periferia. Alguns já fora da escola e muitos compondo a população de "menores na rua". Durante cerca de dois meses reservou alguns dias da semana para ouvir esses alunos oriundos da escola pública. O questionário compõe-se de 20 perguntas que, uma vez respondidas, ofereceram uma radiografia exata do que se passa atrás dos muros da escola, invisíveis à população. Um verdadeiro filme de terror.

De posse das respostas ao questionário, iniciou-se a consolidação do material e a feitura do suplemento gráfico. Diante da sistematização, surgiu um dado que não se pretendia pesquisar e que horrorizou a pesquisadora: o racismo institucionalizado, o Apartheid na escola pública. Lá estava ele, como um monstro tomando todo o cenário, explicando tudo, respondendo aquela pergunta lá do início, o "Por quê?" de as crianças não permanecerem na escola: 39 dos 40 entrevistados são negros e pardos, descendentes da nossa população escrava, que foi a segunda maior da província, só perdendo para a cidade de Juiz de Fora, aqui perto.

A diretora de Estatísticas da Educação Básica do INEP, Maria Onês Gomes Pestana, fala do "embranquecimento" na educação, ou seja, os negros entram na escola, mas não conseguem avançar nos estudos. Na faixa dos 17 anos, apenas 13% dos jovens negros estão na série adequada. (Folha de São Paulo - 28/7/06 - Cotidiano, C1). Como permanecer numa escola em que ainda são tratados como cidadãos de terceira classe? Ou nem isso, mas como párias, que nossa história pariu e não conseguimos resgatar.

Estou na luta contra a discriminação racial. Peço perdão às nossas crianças negras de Leopoldina e deste país, pois sabemos que esta amostra representa a realidade nacional (números do INEP no artigo da Folha citado acima). Tenho sofrido retaliação da minha "raça branca" por estar do lado delas e denunciado os criminosos que praticam racismo nas escolas, mas nada me fará recuar. Essa ignomínia tem de acabar.

Longo Caminho para a Liberdade

Nelson Mandela conta que, quando criança, no primeiro dia em que chegou à escola, a professora branca lhe perguntou seu nome.

- Rolihlahla Mandela, respondeu.

- Não, não pode! Tem de ter nome inglês, vai se chamar Nelson.


E assim ficou: Nelson Mandela. O poder de uma professora aliado ao racismo mudou o nome do grande líder sul-africano, por quem tenho uma grande admiração e reverência.

Às vezes, penso em quais são as substanciais diferenças entre o “apartheid” de outros países, como a África do Sul e EUA, e o nosso, brasileiro.

Diante desse fato da professora mudar o nome de Mandela, lembro-me dos negros chegando ao Brasil, durante a escravidão, e já, de cara, recebendo um nome "cristão". Meu Deus, acho isso um horror! Tirar o nome já era eliminar as raízes, aquilo que o ser humano tem de mais determinante para a sua vida social e seus laços familiares. Isso foi na chegada, depois os negros nascidos no Brasil já recebiam o nome dado pelos brancos.

Atualmente, não precisa nem dos senhores de escravo nem da professora. Ainda não descobri quem são os novos nomeantes dos negros (a televisão? as novelas? o cinema?), só sei que os nomes das crianças negras já chegam nas escolas estrangeirados, em sua maioria, americanizados.

E o que tem isso? Tem tudo! Junto com os nomes, foram-se as raízes, a história, a dignidade, o orgulho, a união. Por mais que a gente queira disfarçar e negar, o racismo está entre nós e atinge drasticamente a vida dos negros, atinge a habitação, o emprego, a educação e os serviços públicos. E não fazemos nada, porque, oficialmente, ele não existe. Penso o quanto isso não será mais maléfico do que o apartheid, pois o racismo institucionalizado fez com que a comunidade internacional e a Organização das Nações Unidas - ONU - fizessem pressão pelo fim da segregação racial.

Os nomes jogados fora lembram-me Manoel de Barros:

As coisas jogadas fora

têm grande importância

- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia

saber qual o período médio

que um homem jogado fora

pode permanecer na terra sem nascerem

em sua boca as raízes da escória

Mas como no Brasil, o racismo é "informal", não está escrito no papel e sim nas estrelas, esses organismos ficam sem ação diante do mito da nossa igualdade racial.

*Professora aposentada. Coordenadora do CENACAF.

Extraído : http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?codnoticia=8852&codcanal=71

Por Jorge L.R.Santos - Kedere Consultoria Educacional
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