Cor padrão de que?
Se olharmos nossos band-aid, a cor padrão é a bege, natural dos sujeitos da etnia branca, perdão a quem nunca ouviu sua cor relacionada ao termo etnia. Cor padrão de pele bege.A mesma cor do lápis de cor “cor de pele”.Nas Barbies, nos comercias de tv, nas personagens principais das novelas, essa é a cor padrão.Das crianças de propaganda de fralda, das Pollys e Jolys, lá também não existe tipo de cabelo ou cor de pele que se refira a outros sujeitos que não os brancos, ou os branco-semelhantes, já que somos um povo de ascendência múltipla e inescapavelmente africana.
Nosso racismo, antes que me queiram dar aula de biologia, não é baseado no DNA e sim no fenótipo. Somos uma sociedade não apenas multiétnica, mas mestiça, sim, desde sua formação. (Não vieram mulheres nas caravelas então... e não bastasse isso, africanos mouros já haviam habitado a Europa Ibérica durante sete séculos,logo nem os nossos branquinhos navegantes era tão branquinhos assim). Mas ainda que a ciência do novo século proclame aos quatro ventos a prova mais científica de que o animal humano não se categoriza por raças, as diferenças fenotípicas são menos de 5 ou 1 % de nossa composição genética, é sobre essa aparência de diferença que recaem todo nosso preconceito e racismo.
Ninguém vê meu exame de DNA, vê minha cara e é por ela que sou julgada. Saber nessa mistura quem é negro importa muito menos do que saber quem na verdade sofre discriminação por sua cor de pele e textura do cabelo. É simples. 1
Aulas de ciência a parte, é isso que acontece. A esse fenômeno cromático da mídia brasileira, reflexo dos anseios de sua sociedade nós chamamos de “invisibilidade”. Nós, aqueles sujeitos cuja cor não é a do band-aid nem a do lápis de cor, somos o elemento cor padrão do código policial.
Padrão de que?Padrão de ladrão, de corrupção inerente à cor da pele. “O sujeito é um suspeito por si mesmo, por ser pobre e negro”. Um exemplo transparente de racismo, essa frase não é uma invenção, é um termo operacional da policia de São Paulo, cujo racismo institucional produziu a morte do dentista Flávio Sant’anna, cujos pms confessaram a forja das provas para justificar o assassinato, assassinato do sujeito de cor diferente do lápis de cor, que nem eu, que foi “confundido” com ladrão.2 Sujeito suspeito em si mesmo.
Não é exclusividade de São Paulo não, o Jornal “EXTRA” publicou em reportagem 3 de capa a manchete “curso para policiais ensina que traficante é negro e usuário, branco”, na reportagem é exibida foto do site apresentando o tráfico num gráfico piramidal onde o traficante negro está no topo, a polícia e o usuário dividem as pontas da base e a droga está meio. Além de simplista, racista. Interessante que o repórter Camilo Coelho teve o cuidado de pesquisar e publicar a foto dos traficantes mais procurados do Rio e pasmem, eles tem cor de band-aid!!! Além de mencionar o fenômeno cada vez mais recorrente de jovens ricos envolvidos no tráfico. Qual a cor dos jovens ricos da sociedade brasileira? Ricos de berço, de pai e mãe, não estou falando das exceções do circo futebolístico.
Mas ainda conseguem dizer que não há racismo, ou ainda que não há negros no Brasil riem, me dão aquela aula de biologia que já sei, já sei., se enervam “com esse papo”: somos todos, eu, você a Xuxa e a Gisele Bündchen, iguais! Vamos ao shopping, fazer o teste ao entrar na primeira butique chique que aparecer. Claro que somos iguais....num mundo perfeito onde haja possibilidade de acesso à universidade para todos, num mundo perfeito onde a polícia não me pare na rua por 1 ou 5 % da minha composição genética, num mundo perfeito onde se possa seguir a fé africana sem ser chamado de adorador do demônio, onde professores adotem a lei 10639 sem precisar de justificativas,num mundo perfeito onde pessoas não deixem de votar no Obama por medo de conflito racial,num mundo perfeito com band-aid da minha cor, com mocinhas de novela da minha cor, com meu cabelo, num mundo perfeito onde Flávio Sant’anna e tantos outros estão vivos e seguros.
1d’ADESKY,Jacques. Anti-racismo, liberdade e reconhecimento.Rio de Janeiro: Daudt Design Comunicação e Editora.2006
2 A morte de Flávio mobilizou artistas e profissionais liberais a pensarem em manifestações artísticas, sob a forma de intervenção pública de larga escala denunciando racismo. O grupo se chama Frente 3 de Fevereiro.Disponível em: http://www.frente3defevereiro.com.br/
3 Jornal Extra de segunda, 22 de setembro de 2008 Ano XI número 3912